'Quanta': misticismo, arte e ciência aos olhos de Gilberto Gil
Quando produziu Refazenda, Refavela e Um banda um, Gilberto Gil indicava já no título dos álbuns quais seriam os temas centrais sobre os quais ele se debruçava nas suas composições. Com Quanta, embora a associação do título com o tema do álbum possa ser menos direta, a situação não é diferente.
“Quanta, do latim plural de quantum, quando quase não há quantidade que se medir, qualidade que se expressar.” Foi assim que Gil poeticamente definiu o conceito usado como título do álbum na música homônima que o abre. Quanta não é mesmo uma palavra de fácil definição. Um conceito físico relativo a ocorrências que não encontram analogia com a física concreta e palpável que conhecemos no mundo macroscópico. Com a complexidade do tema, natural que Gil tenha consultado um especialista na área. O físico Cezar Lattes foi o escolhido. Numa troca de correspondências com Gil, cujo assunto são as letras de Quanta, escrevera Lattes:
“Peço apenas que me permita dizer o sentido que a física dá atualmente a algumas palavras que você usou, com muita felicidade, mas que em alguns casos me parecem licença poética: o ‘Infinitésimo’ é uma ficção matemática. Quantum é o mínimo de ação (energia X tempo). O Quantum de Ação é mais real do que a maioria das grandezas físicas: seu valor não depende do movimento em relação ao observador.”
Cezar Lattes, por sinal, foi homenageado na segunda canção do álbum. Um samba-enredo da Estação Primeira de Mangueira de 1947 escrito por Cartola e Carlos Cachaça. A homenagem a Lattes se justifica por ter sido ele um dos maiores cientistas brasileiros, com participação direta na criação do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e no trabalho que rendeu o prêmio nobel de física de 1950 a Cecil Powell, na época chefe do laboratório ao qual Lattes fazia parte na Universidade de Bristol no Reino Unido.
O álbum que começa com Quanta e Ciência e arte segue o ritmo de Gil que encontra novamente a ciência cara a cara em átimo de pó. Nessa canção, a ciência é transformada em poesia. Pululam a cada verso termos técnicos como magnéton, íon, glóbulo, spin, quark, eon. A rima se faz por meio de um yin yang entre o mundo microscópico e o macrocosmo, passando pela reflexão do si: “eu, um cosmos em mim só”.

E é dessa forma que Gil fala de ciência, sempre de um modo que vai além da arte. Que chega a ser filosófico, reflexivo e como teria de ser com Gil, místico. Depois de passar a mensagem conceitual do álbum, Gil se perde no seu mundo místico, que em geral é ocupado principalmente pelas manifestações dos terreiros de umbanda/candomblé. E é nesse conceito que surgem Opachorô, Dança de Shiva, Graça Divina e Água Benta . Curiosamente, em Água Benta, Gil narra uma ocorrência em que um bebê é batizado com uma água benta “contaminada”, que não surtiu o efeito positivo esperado.
Em Guerra Santa, Gil destila uma crítica sagaz àqueles que se aproveitam da fé das pessoas, àqueles que “promete(m) a mansão no paraíso contanto que você pague primeiro”. A canção termina com uma mensagem conciliadora: “o nome de Deus pode ser Oxalá, Jeová, Tupã, Jesus, Maomé. Maomé, Jesus, Tupã, Jeová, Oxalá e tantos mais. Sons diferentes, sim, para sonhos iguais.”
Em a ciência em si, Gil, juntamente com Arnaldo Antunes, volta a falar de ciência. Há aqui uma visão da ciência como algo intrinsecamente belo: “A ciência não se ensina. A ciência insemina. A ciência em si.”
Em Pela Internet, Gilgerto Gil mergulha na “informaré”, trazendo novamente uma sequência de termos técnicos, agora associados à internet. Essa é talvez a música mais conhecida do álbum, juntamente com Estrela, com uma letra que mistura amor e, novamente, misticismo. O ponto forte de Estrela é a sua melodia suave, que com uma letra também suave, faz uma combinação de maior apelo popular.
E o disco é complementado por outras composições que trazem um Gil criativo como de costume. Afinal, com Gil é assim, muda-se o tema, varia-se o ritmo, mas a inspiração segue a mesma.
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